28/07/2025

Olá sumida!!!


Sete anos entre a última postagem e essa! 
E essa que vos escreve é outra! 
Calma, ainda sou eu, ainda é a Mariana, mas com um plus a mais!
Vamos do começo, afinal a ideia é que esse blog um dia chegue até os meus filhos então preciso contextualizar pra não acharem que a mãe era levemente doida.

Antes de vir escrever eu nem mesmo sabia se esse blog ainda existia, e quando descobri que ainda existia eu nem mesmo sabia se ainda tinha acesso a ele e qual foi minha surpresa quando sem muito esforço eu consegui entrar novamente na minha conta do jeitinho que deixei!
Eu reli minhas ultimas postagens e nossa que angústia eu senti, entre longas pausas de postagens e parágrafos longos, eu encontrei uma Mariana triste, talvez um pouco depressiva, perdida e muito saudosista de si mesma.
Vi textos e mais texto de lamentações por ter mudado tanto, fisicamente, e de todas as outras formas possíveis. Ví saudade do teatro, saudade da amiga que perdera a amizade, saudade de dançar, saudade da autoestima. E mulher respira fundo que trago boas novas!!! (E a partir daqui peço licença aos meus filhos mas vou escrever como se fosse  conversar comigo mesma ta? )

Vou começar falando que faz três anos que você tomou uma das melhores decisões da sua vida e buscou ajuda psicológica, e esse mês você completou três anos de terapia!
Isso ja foi um divisor de águas na sua vida, você conseguiu compreender muitas das suas dores, reconheceu alguns traumas, se perdoou por algumas vezes que exigiu demais de si mesma, se acolheu e aprendeu, aprendeu muito! Hoje você dialoga muito mais, com seu marido, com sua família, você entendeu seus limites e respeita eles e se faz respeitar também, você consegue verbalizar melhor o caos que reconhece que existe dentro de si. 

Lembra da saudade sufocante do Teatro e como você sofria e se martirizava por não ter conseguido dar continuidade a essa paixão aqui em Prudente? Você olhou pra isso, reencontrou-se com o palco, e quem diria, ao pisar no tablado você sentiu que não fazia mais tanto sentido pra você, foi um pouco decepcionante afinal você tinha criado muita expectativa sobre como seria esse reencontro, mas foi mais ainda reconfortante entender que aquele ciclo havia se encerrado e ta tudo bem encerrar ciclos. Você fez as pazes com o teatro, guardou o amor com muito carinho e decidiu seguir em frente, como quem termina um relacionamento bom com muita maturidade. 

Sabe a saudade daquela amizade desfeita que te fazia chorar todo dia oito de março? Ela voltou pra sua vida! Nas vésperas do seu casamento em 2017 você tomou coragem e enviou um convite de casamento, sua cartada final, e qual foi a surpresa quando ela pediu pra te ver e conversar? Vocês conversaram, choraram, se acertaram e a amizade voltou a florescer, ela foi no seu casamento, e hoje além de vocês, seus maridos são muito amigos! Tudo ficou bem!


Lembra da saudade da dança e de si mesma? Mulher tu voltou e digo mais, voltou arrasando!!!!
A terapia te ajudou a cuidar melhor de si, você foi na endocrino, começou a academia (mas faz dois meses que vc falta então foco!!) , e encontrou uma aula de dança que te cativou e agora toda terça feira você tem hora marcada pra se esbaldar no Jazz Funk! E o melhor? O Bruno te apoia em tudo! Você conseguiu emagrecer, sua energia mudou, as pessoas comentam que seu olho voltou a brilhar, que você ta mais confiante e mais feliz, uma amiga falou que parece que você ta viva depois de muito tempo! 
Você fez as pazes com o espelho, você entendeu que você não vai mesmo voltar a ter o corpo ou a pele da Mariana de 20 e poucos anos, mas você ta amando essa Mariana de 37 e é isso que importa!


Lembra que estava morando com seus sogros? Pois bem, ainda está mas por poucos meses! 
A casa de vocês está quase pronta, e é uma casa linda, que vai ter muito amor em cada cantinho.
Foram muitas mudanças mesmo. 
O seu ateliê teve momentos que bombou e agora ele ta meio parado, mas você sabe que é fase e que você precisa se empenhar mais pra ele voltar a bombar, mas no momento você tem outras preocupações na cabeça. 
A vida tem sido boa com você, você é amada demais, é cada dia mais apaixonada pelo seu marido, e não vê a hora de ter um pitoquinho pra chamar de seu.
Tudo passa menina, aliás, já deu de te chamar de menina né? A vida presta mulher, você é foda, e tudo se ajeita. 
Respira fundo e bora começar essa nova fase do blog e da vida?

20/10/2018

Roda

Quando tocava a música não existia moveis
não existia medo
não existia pressa

Quando rodava o corpo não existia amarras
não existia tempo
não existia fim 

Quando cerrava os olhos não existia duvidas
não existia nada implícito
existia alma escancarada
lágrimas misturadas a sorrisos

Quando pisava o pé descalço não existia questionamento
não existia cansaço
existia suor
existia êxtase 

Quando jogava os cabelos não existia calma
não existia erro
existia instinto
existia leveza

Quando findava a dança
não existia tristeza
não existia mágoa
não existia receio
existia , 
existia.

Metamorfose

Faz mais de um ano desde que postei aqui pela última vez.
Algumas coisas em mim mudaram, outras fiz questão de não mudar.
Tenho medo de ter me perdido de mim mesma, algo que sempre bati no peito que nunca faria, mas é também algo que nem sempre tenho controle....e a partir do ponto de vista que eu não sou a mesma de ontem e nem a mesma de amanhã então eu posso só ter me perdido da Mariana de anos atrás mas me reencontrei na Mariana do presente...
Essa Mariana raramente dança...pra dizer a verdade não lembro a ultima vez que dancei sozinha como amava fazer.
Essa aqui que vos escreve não se reconhece em vários momentos , e por alguns momentos isso é bom.
Ela passou por algumas emoções fortes e quis correr pra longe, chorar até não conseguir mais, gritar, chacoalhar a cabeça pra ver se acordava pois queria de coração estar em um sonho, ou pesadelo...mas não estava.
Mas por outro lado ela descobriu uma coisa nova que ama fazer e faz muito bem , só precisa agora lidar com sua ansiedade pra não por tudo a perder...
Ela decidiu retomar esse blog assim ela se reconecta com ela mesma e como o objetivo desse sempre foi ficar de herança pros seus futuros filhos talvez seja de alguma utilidade eles verem que mudanças são difíceis mas nem sempre são ruins...
Hoje ela não vai escrever muito pois tem prazo pra entregar encomenda... (sim isso faz parte da novidade...)
Mas ela volta, promete, e costuma cumprir as promessas....algumas...

04/04/2017

Quiero casarme contigo....

"Quero casar com você, e pra isso só preciso do seu amor.
Talvez um sábado sem chuva, num campo verdinho, com árvores ao fundo, um pôr do sol, fitas de cetim voando atrás do altar, um jardim de corações de papel emoldurando o caminho do cortejo.
Quero casar com você descalça, sentindo a grama nos meus pés, te ver a vontade no altar sem nenhuma gravata pra te apertar, e com as pessoas que amamos podendo ser elas mesmas.
Quero casar com você, com meu irmão e nossa sobrinha levando as alianças, amarradas em seu brinquedo preferido, sem terem que usar roupinhas que lhes incomodem.
Quero casar com vc, com garrafinhas pintadas por mim no centro de cada mesa, mensagens de amor em pequenos cavaletes feito por nós e nossa família, flores bonitas e não mais que o necessário, bolas de barbante confeccionadas em algumas madrugadas por você.
Quero casar com você sem usar joias, só um brinco de capim dourado, uma flor no meu cabelo solto, um vestido simples e leve, um buque de origami feito por mim e por você.
Quero casar com você, e declarar nossos próprios votos, sinceros e escritos em papeis rabiscados. Quero um celebrante que nos conheça e fale mais de amor e Deus do que religião.
Quero casar com você, e que os convidados não tenham uma regra de vestimenta, que todos se sintam bem vindos e ninguém se sinta intimidado por nenhum tipo de ostentação.
Quero casar sem luxo, sem perfeccionismo, sem neura sobre toalhas, lugares, ou qualquer outra coisa que seja material.
Quero celebrar uma união e não oferecer um evento.

Só quero casar com você, em um casamento perfeito, pra ser perfeito só precisamos de nós , nosso amor , Deus e quem nos ama. "

Assim foi, perfeito, nossa igreja foi a natureza, e Deus nos abençoou.

01/03/2017

As vésperas do "SIM"...

Daqui exatamente trinta dias , nesse horário ela estará  finalizando sua maquiagem e entrando no carro para ir ao local do seu casamento.
Ela penou muito, teve que conhecer algumas pessoas que a decepcionaram, a machucaram, a fizeram desacreditar de quem sabe um dia estar em um relacionamento duradouro, com amor de verdade, cumplicidade, diferenças, concessões , risadas, conversas sérias ...
Mas no fundo ela nunca desacreditou de verdade. 
Ela sabia que ia encontrar com ele, ela sabia que uma hora ele chegaria, que na melhor hora ele chegaria e seria assim, exatamente o que a vida dela pedia, e ela seria o mesmo pra ele. 
Tem muita diferença entre os dois, muita mesmo, mas é muito bonito a forma como os dois foram se moldando a essas diferenças,

Ao mesmo tempo eles tem muito em comum. O que ela considera essencial eles tem em comum. 
Ela ama a forma como ele respeita toda forma de amor, toda forma de religião, de pensamento.
Ele enxerga o mundo além, eles querem juntos educar o futuro filho deles de maneira completamente desconstruída, respeitando a todos, independente de cor, credo, orientação sexual. 
Eles dividem ideias, histórias, têm uma sintonia que ignora suas diferenças. 
E o principal, eles tem AMOR, no sentido mais real possível, com respeito, doação, compreensão, tolerância, carinho, toque, e de alma.
Daqui trinta dias ela vai olhar no olho dele e vai afirmar perante todos presentes e Deus que sim, quer seguir essa estrada passageira que é a Vida , de mãos dadas com ele, sem soltar, sem temer, por todas as próximas vidas se Deus assim permitir.





14/12/2016

Busca

Ela tava meio perdida em suas ideias..isso não era novidade nenhuma, mas antes, muitos anos atrás quando se sentia assim ela só botava uma música qualquer, apagava a luz do quarto e dançava meio sem regra e sem compasso , de um jeito bagunçado que parecia correto pra ela.
O mundo era bom quando dançar parecia aliviar os problemas .
No mundo adulto ela não tem tempo, animo, espaço ou vontade de dançar.
E quando se anima ela vê que o tempo passou. Que tem outra coisa pra fazer. Ela aperta a vontade de dançar de volta pra dentro dela como quem tenta fechar uma mala muito cheia.
Tinha até prometido não se "esquecer de si mesma" , mas ela ultimamente não tem se reconhecido , então isso meio que perdeu o sentido.
Ela entende que precisou mudar, amadurecer, mas vez ou outra ela sente culpa quando ve uma foto de uns anos atrás aquele sorrisão despreocupado ao estilo "keep calm, and just dance!" .
A mania de escrever sobre si na terceira pessoa ela não perdeu. Ponto.
Agora ela escreve em bloco de nota enquanto espera a internet voltar pra retornar o que estava fazendo online.
Já nem sabe mais pra quem, ou porque escreve. Já alegou outrora que era registro pros filhos a conhecerem melhor...
É segredo, mas ela não se ve ficando velhinha, sempre teve a intuição que desencarnaria jovem provavelmente deixando marido e filhos. Como disse, é segredo. Nunca comentou isso com ninguém, achou meio inoportuno e bem pessismista e provavelmente levaria bronca por pensar assim. Ela não escolheu, mas sente isso desde muito cedo.
De qualquer forma ninguém lembra desse espaço então escreve sem preocupação.
Ela está bem, e está feliz, mas sente falta de alguma coisa, e ela não sabe dizer o que. Não é nada no ramo afetivo, ou de amizades, é algo dela, dentro dela mesmo. Acho que é o coração sambando.
Bem...definitivamente é o coração sambando.
O coração dela sambava quando ela estava extremamente entusiasmada com algo que estava prestes a acontecer, ou quando de madrugada ela tinha vontade  quase incontrolável de desenhar, escrever ou dançar. O sambar do coração dela mantinha ela com uma expectetiva igual de uma criança na véspera do proprio aniversário, a diferença é que ela ficava assim sem nem sempre entender o motivo. Mas adorava ficar assim....

21/09/2016

Sobre aprendizado, faltas, e meus alunos...



Faz quase um ano que não escrevo aqui...não por falta de vontade, não por falta de tempo...não sei dizer o que aconteceu comigo nesse ano que se passou.
Meu ano foi bom, foi cheio de expectativas, cheio de coisas boas que aconteceram, e coisas que esperava acontecer e não foi bem assim...
Me olho no espelho e não me reconheço, coisa minha comigo mesma....mas que estou trabalhando pra melhorar...

Comecei a trabalhar em um lugar que eu tinha vontade de fazer tudo por ele, conheci crianças, meus alunos, que me desafiaram, como professora e como pessoa, pequenos e grandes alunos que fui aprendendo a amar um por um em meio a broncas, abraços e orgulho.
E fui demitida.
Não por algo que fiz, ou deixei de fazer. Corte de gastos.
Mas foi a primeira vez que fui mandada embora, tive um corte de relações repentino com as crianças que aprendi a amar em pouquíssimo tempo.
Me foi negado o direito de me despedir delas, insisti, pedi, bati o pé, e tive um dia pra dizer adeus e não dar muita explicação.
Entre elas tinham algumas que acabaram comigo ter que dizer tchau.
Tinha o JG, ele tinha um pequeno grau de autismo, tinha dez anos e dizia-se apaixonado por mim, era doce, sorridente e toda aula me pedia pra brincar de caça ao tesouro , eu tentava explicar que pra isso todos deveriam querer brincar, e tentava convencer a sala mas ninguém topava. Conversava com ele e via outro jogo que ele gostaria de brincar . Na maior parte do tempo ele ficava em seu mundinho, mas todo dia de manha vinha me falar "Bom dia minha dama" apertando minha mão. Na despedida os alunos me escreveram cartas, na dele ele colocou o endereço de sua casa "Vai me visitar por favor esse é meu endereço, minha casa tem porta branca.." . Nunca vou esquecer dele.
Havia também o I. diagnosticado com psicopatia infantil, quando cheguei fui alertada sobre ele, tinha nove anos, era manipulador, tinha um leve atraso, provocava os colegas e quando os mesmo revidavam ele ficava parado chamando nossa atenção pra ficar como vítima da situação. Por isso as demais educadoras não tinham paciência com ele, eu era nova lá e talvez por isso tinha mais. Ele adorava ficar abraçado, ou de mãos dadas com as educadoras. As demais crianças não entendiam o problema dele e sempre reclamavam de seu comportamento. Um dia pensei em contar-lhes, mas achei melhor não, elas o tratavam apesar de tudo bem, como se ele não tivesse nenhum problema. Isso acho eu , era bom.
R. ela foi o maior desafio. Uma adolescente, treze anos, extremamente fria, agressiva, mas ao mesmo tempo os olhos dela a traíam e passavam uma doçura que ela tanto queria esconder. Meu primeiro encontro com ela foi ela cochichando algo pra uma colega enquanto olhava pra mim e ria. Eu não me deixei abalar, olhei e sorri de volta. Depois em minha primeira aula ela ja demonstrou-se desconfiada, expliquei quem eu era, e deixei aberto pra me fazerem as perguntas que queriam, enquanto todos me perguntavam ela ficava em silencio como se estivesse me lendo ou tentando me ler. Eu sabia que com ela teria que ter um certo cuidado. Uma das educadoras me disse que um dia que ela a desrespeitou a mandou pra fora da sala, ela saiu e com uma chave riscou a moto da educadora. Então tentava ao máximo não bater de frente com ela e ao mesmo tempo tentava ser firme. Mesmo assim senti que ela se afastava cada vez mais. Ela andava com os meninos da sala, eles a admiravam por seu comportamento rebelde , e ela percebi que tinha necessidade dessa aprovação deles. Um dia cheguei em sala e ela estava com um brinquedo de blocos em mão jogando as peças nos colegas, pedi que guardasse. Ela não o fez, me ignorou e continuou a jogar os blocos. Insisti, e nada. Alertei que se ela não guardasse teria de ter consequências, ela riu. Insisti, ela me desafiou achando que eu blefava, pedi que se retirasse, ela se irritou pegou o jogo todo e tacou na parede do outro lado da sala. Vendo que ela não ia se retirar e estava exaltada saí da sala e fui pedir pra psicóloga chama-la pra conversar. Ela saiu, e retornou em silencio quando a aula ja acabava. Me senti mal, queria entende-la , queria ter uma abertura, sabia que sua vida não era fácil. Na mesma semana ela brigou com outro aluno, e sua mãe foi chamada, a mãe igualmente fria brigou com ela e puxou seu cabelo diante da coordenadora e educadores. Na semana seguinte ela estava diferente, mais quieta, não digo mais calma pois sentia que ela estava com a raiva contida, mas ainda tinha raiva. Fui dar minha aula e decidi apresentar uns slides com fotos de algumas apresentações minha, isso chamou a atenção dela, e pela primeira vez vi ela se afastar dos meninos pra prestar atenção ao que eu falava. Ela me fez perguntas sobre as peças, sobre meu figurino, sobre como foi pra mim interpretar um homem , eu respondi tentando conter minha felicidade ao vê-la participando. Adotei o psicologia do abraço, no caso do sorriso pois ela não se permitia abraçar nenhuma educadora, todo dia de manha que eu a via eu sorria e dizia "Bom dia R. , tudo bem com você?", na primeira vez ela ficou tão desconfiada que não me respondeu, depois me falou bom dia, depois me disse que que estava tudo bem, e finalmente já me perguntava como eu estava também.  Então também mudei meu modo de coloca-la em aula, sempre perguntava sua opinião nas atividades, a colocava como lider nos jogos , perguntei se tocava algum instrumento, ela disse cajon, e consegui um emprestado pra ela tocar na apresentação de dia das mães. Ela brilhou na apresentação. Eu a via sorrindo e o sorriso agora condizia com o olhar doce. Ela ainda era rebelde, ainda mexia nas fantasias da sala quando não podia, mas quando eu pedia pra guardar ela guardava e ainda dava bronca nos meninos pra eles guardarem também. Uma semana antes de eu ser mandada embora a psicologa que sempre a atendia foi transferida, e pela primeira vez via a R. chorar. Enquanto os demais alunos abraçavam a psicologa pra se despedir ela chorava olhando de longe. Eu vi, fui até lá. Pedi que falasse comigo e ela me respondeu "Você não entende pro, a Lidi era a única que me ouvia, que sabia o que acontecia comigo,ela me ajudava a não ter raiva. Agora ela ta indo embora, quem vai me ouvir? Quem vai conversar comigo?" , aquilo mexeu comigo, eu a abracei, não queria saber se ela gostava ou não de ser abraçada, foi de impulso , mais forte que eu, eu queria abraça-la o mais forte possível e o fiz. Pra minha surpresa ela não tentou se soltar, encostou a cabeça em meu ombro e chorou , e eu chorei junto. E falei "R. sei que a gente se estranhou no começo, sei que posso ser só mais uma professora, mais eu me preocupo com você, e gosto muito mesmo de você e quero que saiba que você pode sim contar comigo, conversar quando precisar ou estiver nervosa, pode se abrir, pedir conselho, eu to aqui pro que você precisar, você não esta sozinha."  Ela falou sobre sair do projeto, e eu falei que se ela saísse o projeto perderia uma aluna muito importante e especial. Convenci ela a não abandonar o projeto. Uma semana depois fui demitida. Quase não tive coragem de olhar ela nos olhos, na semana anterior ela me perguntou se eu também iria embora, e eu disse que se dependesse de mim não iria, mas uma semana depois descubro que vou embora. No dia que fui me despedir ela estava na aula de judô. Quando os alunos me viram vieram correndo em minha direção já chorando me perguntando porque eu estava indo embora, ela novamente me olhando de longe, veio se aproximando depois de todos, me deu abraço apertado, pediu me whats e disse que precisava voltar pra aula de judô. Ela chorou, mas se despediu rapidamente de mim. Na hora me doeu, queria mais demonstração de carinho, e não tive. Mas lembrei de como ela reagiu a despedida da psicologa. Compreendi. No mesmo dia ela me mandou mensagem no what, "Pro estou com saudades, porque você saiu ? Você era a pro mais legal, agora não tenho mais motivos pra continuar no projeto, vou sair" , conversei com ela, expliquei, ela ficou com raiva da coordenadora mas eu expliquei que ela não teve escolhas pois a instituição estava passando por dificuldades financeiras e teve que demitir que havia entrado por último pra não ter tantos encargos pra pagar . Ela entendeu, mas disse que o projeto não seria a mesma coisa sem mim. Ela foi minha melhor conquista , minha maior prova, minha maior lição que aprendi nos poucos meses que trabalhei lá. Ela é uma jovem como várias que existem por aí que muitos julgam descontroladas e delinquentes mas que tem uma família desestruturada, passa fome, dificuldades, violências de todos os tipos que a fazer ser fria, mas que esperam alguém olhar nela mais do que isso, olhar a doçura em seus olhos, e descobrir que ela tem muito mais a oferecer, tem qualidades, tem talentos que precisam ser valorizados pra quem sabe mudar seu futuro. Descobri que ela canta. E canta bem, só descobri uma semana depois de ter ido embora porque ela me add no facebook e vi um vídeo que uma irmã mais velha dela postou uns meses atrás. Ela tem uma linda voz . Ela tem arte dentro de si e espero de coração que ela não perca isso. A R, e todos eles , cada um deles me fez entender uma nova maneira de amar e lecionar.

Recebi mais de sessenta cartas que eles me escreveram e chorei lendo cada uma. Faz quatro meses que não trabalho mais lá, e ainda sonho com eles toda semana. Toda semana sonho que voltei a trabalhar lá ou que reencontrei eles em alguma situação bem melhor. Foi um baque pra mim, fiquei mal por muito tempo mas não contei pra quase ninguém, nem aqui pro meu cantinho online, eu realmente sofri. Descobri um novo choro, um novo sofrimento, uma nova saudade.
Eles ainda me mandam whats, e perguntam quando vou visitá-los, mas não sei se tenho essa coragem pois sei que na hora de falar tchau vai ser igualmente doloroso. Mas vou  , com certeza vou.


Esse foi um dos episódios desse ano, o que mais me marcou, ja imagino as pessoas me falando que tenho que parar de sofrer tanto e me apegar aos alunos por isso, que devo romantizar menos as coisas, mas eu sou assim, e prefiro sofrer por ter me apegado do que sair de um lugar sem ser lembrada e sem ter feito nenhuma diferença na vida de pelo menos um aluno.


Isso me mudou de alguma maneira, muitas coisas me mudaram, em tempo, a saudade do palco ainda está comigo, mas evito falar disso, pensar nisso.
Sei que cabe a mim fazer algo, mudar isso, correr atrás, escrever uma peça e apresentar, mas com quem, sozinha? E patrocínio, apoio? E as contas? Não posso me dar ao luxo de me dedicar de corpo e alma a algo que não vai me trazer retorno financeiro porque é o que precisamos agora.
Respiro. Vou me recompor. Não sou a primeira nem a última a dar um tempo no seu sonho mesmo porque tenho outros sonhos agora que precisam de minha atenção. Talvez deva mesmo parar de romantizar as coisas...
Um dia quem sabe , nunca é tarde pra um palco.